Na pauta do consistório convocado – assembléia ou reunião de cardeais presidida pelo Papa – constava apenas a discussão e decisão sobre três canonizações.

Tudo transcorria como de costume. Os integrantes do staff papal já estavam bem acomodados em seus assentos e o Pontífice já havia ocupado a agenda prevista. Tudo indicava que o protocolo daquela segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013, estava próximo do seu final.

Mas não foi bem assim. Assessores mais próximos perceberam que o Papa estava inquieto. Havia algo no ar daquele fatídico dia.

Foi nesse momento que Bento XVI retira da pasta um papel que ninguém tinha visto. E fez um corajoso e histórico pronunciamento.

No Vaticano, como de praxe em outros lugares do mundo, pronunciamentos são analisados em termos de forma e conteúdo, além, claro, da legitimidade dos atos e suas consequências. Não foi o caso daquele documento. Apenas o Papa sabia do que se tratava.

O Papa, então, lê o texto em claro e bom tom de voz. Declara-se incapaz de continuar em sua missão, relata que suas forças físicas e mentais se esgotam e anuncia que no próximo dia 28 de fevereiro apresentará renúncia.

O Secretário particular do Sumo Pontífice pensa consigo “Vamos com calma… deve haver um engano…” e aproxima seus olhos para aquele papel na suspeita de que um intruso o tivesse escrito e caiu por acaso na prancheta papal. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tosse e, rapidamente, busca respostas para as perguntas que ainda ninguém fez. Os Cardeais presentes se entreolham estupefatos.

Crises são assim. Mostram sinais imperceptíveis, pistas de algo que pode ocorrer, singelas pegadas na neve ou discretas marcas na história recente. Até que, em determinado momento a montanha vem abaixo, o trem descarrilha e as coisas parecem sair de controle. E não se tem a visão de um desenrolar lógico dos acontecimentos que levariam a um desfecho feliz.

Foi nesse processo que, hoje, identificamos fatos críticos na linha do tempo do Vaticano e na gestão de Bento XVI. O Mordomo, Paolo Gabriele, que vazou documentos pessoais; o Islamismo que prossegue sua histórica expansão; a interminável Segunda Guerra Mundial que, insistindo em se fazer presente, provoca declarações, suspeitas e desculpas; as distorções de comportamento sexual e escândalos públicos de integrantes da Igreja Católica; as invisíveis divisões eclesiásticas na clássica busca do poder; e as dificuldades em incorporar mudanças sociais e tecnológicas, entre outros sinais, apontavam que o fardo estava pesado demais para Joseph Ratzinger, um ser humano de 85 anos de idade.

O motivo da anunciada crise é simples: um cenário impensado! Os que sabiam das condições clínicas de Sua Santidade mantinham discrição e achavam que o fim do Papa seguia seu processo natural de declínio. Os que suspeitavam não se atreviam a lenvantar tal hipótese e os que contavam os anos apenas acompanhavam o dia-a-dia de Bento XVI.

O terreno das hipóteses é fértil pelos que analisam a situação gerada. Chegaram a imaginar um futuro processo de canonização, mas, com a renúncia, isso seria inviável. Pensam eles que o Papa assumiu o cargo para, como a maioria de seus antecessores, nele permanecer atá morte, desconhecendo os dispositivos legais do Código de Direito Canônico. Outros, ainda mais trágicos, formulavam a possibilidade de o sucessor vir a falecer antes de Bento XVI…

Anulus Piscatoris ou o Anel do Pescador é o símbolo oficial do Papa, o sucessor de São Pedro. O Anel era usado como um sinete, o reconhecimento oficial da documentação assinada pelo Papa. Ao renunciar e se enclausurar para reflexões e orações, o Anel que o então Papa Bento XVI portava será destruído.

A Capela Sistina receberá o colegiado de Cardeais e o mundo ficar à espera da celebração do conclave e da escolha do sucessor de Bento XVI.

Como inexiste evento de “passagem do cargo” no caso do Papa, durante a cerimônia de Tomada Papal, o escolhido receberá um novo Anel, que será colocado no quarto dedo da mão direita pelo Decano do Colégio dos Cardeais.

Novo Anel, mesmos problemas, velhas crises!

Homero Zanotta é proferssor de Comnunicação Social e integrante do Instituto Sagres

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